terça-feira, 2 de agosto de 2016

pai.

Nunca me ensinaste grande coisa. Como sempre digo, a única coisa que me ensinaste na vida foi a comer bem e a nunca ser como tu (isto aprendi eu, sem tu nunca o dizeres). 
Compreendo que a vida para ti possa não ter sido fácil, mas por essa mesma razão, achava que isso te despertava um desejo de ser diferente, mas enganei-me.
Compreendo também que depois de teres deixado essa parte da tua vida, as circunstâncias não tenham sido as melhores e que tenhas sofrido o pior trauma que um pai pode sofrer e que nunca tenhas ultrapassado as perdas que isso te causou. Sei que houve algo bom no meio de tanto mau, mas por experiência própria, que também vivi esse trauma, sei que o bem nunca compensou o mau e nunca fez muito sentido na tua cabeça, e percebo.
Também sofri, muito, enterrada no meu silêncio, com as lágrimas mais pesadas. Sofri este trauma e sofri por todas as batalhas que tive que lutar ao crescer, porque a incompreensão era imensa, as perguntas eram intermináveis e o vazio era constante. Aquela dor persistente no peito, que não vemos razão para a ter, que nos segue para todo o lado, enlouqueceu-me, de verdade!
Sei que a vida não é fácil. Não é fácil para mim também, acredita. mas o meu coração parte mais um bocadinho sempre que faz de escudo ás tuas conversas. Tens palavras mais afiadas do que facas e mesmo assim preferia uma faca cravada no peito.
Nunca senti tanta raiva como já senti por ti, e sinto, e tu, de todas as pessoas, por ordem da natureza não devias ser alguém de quem eu sentisse raiva e ódio. Nunca me senti tão rebaixada como me sinto por ti. Mas levantei-me sempre e conquistei o equilíbrio para não voltar a desabar.
És aquela pessoa que nunca ouvi dizer bem de mim, e és aquele que sempre contrariou quem o fizesse. Não tens orgulho em mim, mas eu tenho. Tenho orgulho em tudo aquilo que sou. Tenho orgulho por ter aprendido tanto sozinha. Tenho orgulho pelas estaladas que levas sempre que progrido na vida e que tu achavas que eu não era capaz.
Um dia ainda vou mudar o mundo. Gosto de pensar que já comecei nessa jornada, pelos pequenos gestos.
Nunca me falhaste nos aspetos vitais. Sempre tive tudo aquilo que precisei, comida, teto, dinheiro e educação. Mas nunca me respeitaste como eu respeito as pessoas. Um dia hei-de cuidar de ti quando precisares, mas digo já, não mereces.
A todas as pessoas que veem o teu lado mascarado, espero que o desvendem e vejam o teu verdadeiro eu. E a pergunta que carreguei pela maior parte da minha vida:

O que é que eu quero ser quando for grande? Quero ser nunca como tu e quero agradecer-te por me dares este objetivo de vida.

Sem comentários:

Enviar um comentário